quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Futebol de Rua: perigoso e divertido!

A rua onde moro é de paralepípedo, mas desde que me lembro brinco de jogar futebol ali mesmo, naquele piso totalmente impróprio para a prática de tão fino esporte. Mas quem foi que disse que existe piso ideal para jogar futebol? Afinal não seria o esporte bretão o mais democrático de todos?
Minhas lembranças mais remotas eram de quando eu conseguia escapar de casa e ir na rua tentar jogar com os garotos mais velhos, mas eles sempre me diziam que eu era "próximo" e eu acabava nunca jogando. Na verdade eu nem sabia o que significava a palavra "próximo", mas eu acatava e ficava atrás de um dos gols do "campo" improvisado no chão de paralelepipedo. Tentava me fazer de entendido e fingia que sabia que eu era o próximo, me sentia importante sendo o próximo, afinal o próximo era uma função imprescíndivel dentro do futebol de rua. Creio que nessa época eu tinha por volta de 5 ou 6 anos.
Depois de um tempo, quando realmente pude sair pra jogar bola na rua eu entendi as regras do futebol de rua e suas variações.
No futebol de rua tradicional, o popular "timinho" as regras são bem simples. Não existe goleiro e o número mínimo de jogadores de cada equipe é 2 e o número máximo é 94. Normalmente o número de jogadores das duas equipes é igual, porém isso varia no caso de ter um garoto mais velho jogando ou no caso de o melhor jogador da rua estar em um dos times, aí o time que não contar com essas poderosas armas poderá ter um ou mais jogadores a mais. O tempo da partida é ilimitado, sendo que, geralmente o número de gols define o encerramento e as traves podem ser fabricados com absolutamente qualquer coisa sólida (pedra, madeira, ferro, calçados, lixo, titânio, criptonita e etc...) sendo que o tamanho da meta varia, não passando de 5 passos do garoto com o maior pé.
Nesse jogo o time perdedor cede lugar ao próximo e o próximo pode ser um time completo ou apenas um jogador que escolhe quem do time perdedor ele quer que saia e fique de próximo no jogo seguinte.
Nesse esporte também não existe juiz, portanto não existe impedimentos e raramente há faltas. Somente há faltas quando são muito, mas MUITO claras ou quando existe um chorão no time e os jogadores do outro time se cansam de argumentar e dizem: "Ah, ta bom, cobra logo essa porra". No caso de os jogadores se desentenderem, não existe cartões, então a treta acontece MESMO, porém poucas vezes generalizada. Geralmente os dois jogadores envolvidos na briga ficam sem se falar por um período que nunca ultrapassa uma semana, durante esse período eles não mais soltam pipa juntos, nem jogam bola, nenhum deles se desculpa com o outro, isso é proibido, só acontece quando a mãe obriga, caso contrário o jogador que pedir desculpas será chamado de boiola por todo o pessoal da rua, as coisas devem voltar ao normal naturalmente, sem pedido de desculpas.
No "timinho" quando se joga apenas com garotos da mesma rua não o jogo ocorre mais tranquilo, porém quando a partida é contra garotos de outra rua ou bairro, aí o negócio é mais sério e é chamado de "CONTRA", sendo muito comum nessas partidas o vencedor ganhar do time adversário garrafas de refrigerante (Tubaína e Coca-Cola eram os mais comuns). Nesses jogos os jogadores geralmente apresentavam uma garra acima do comum e a partida é sempre marcada por entradas duras e calorosas discussões. É como uma final de Copa do Mundo, a tensão e o clima de guerra são bem parecidos.
Além do "timinho", outro jogo bastante praticado era o "gol de classe" ou "três dentro e três fora". Para esse jogo é necessário um número mínimo de 3 pessoas e existem diversas variações. Vou colocar aqui as regras segundo as quais eu jogava. O jogo consiste em um goleiro e dois jogadores de linha, o gol deve ser grande, podendo ser em um portão (minha vó queria me matar) ou em um muro. Deve existir também uma área para o goleiro, que normalmente é delimitada pela calçada, sem contar o meio fio. Os dois jogadores de linha devem tentar fazer o gol, porém sem deixar a bola cair, um jogador deve levantar a bola e o outro chutar para poder fazer o gol, isso sem deixar a bola cair (em algumas regiões do Brasil o número de embaixadinhas e limitado). Os dois jogadores de linha são companheiros e devem se ajudar, sendo que devem marcar três gols no goleiro para ganhar. O Objetivo do goleiro é tentar ir para a linha, para isso, ele deve tentar fazer três pontos, sendo que seus pontos ocorrem quando algum jogador de linha chuta a bola pra fora ou quando o goleiro consegue agarrar, ou encaixar a bola chutada por um dos jogadores de linha, antes que essa encoste no chão. O jogador que cede o último ponto do goleiro é obrigado a sair da linha e ir ficar de próximo. Já o goleiro vitorioso, por sua vez, ocupa o lugar do perdedor e passa a ser jogador de linha.
PS: Quanto maior o número de goleiros de próximo melhor, porque aí o jogo fica mais emocionante.
O impressionante era o fato de eu e outros garotos sempre jogarmos descalços. Isso mesmo, eu jogava descalço, no paralelepípedo e era engraçado como todo dia eu arrancava o tampão do dedão (quem nunca fez isso não sabe como é bom). Apesar da dor na hora do ferimento e depois, na hora de tomar banho, eu adorava arrancar a tampa do dedão. Eu tinha uma sensação de que eu era o mais aguerrido jogador de todos os tempos, sentia que eu dava, literalmente, o sangue pelo meu time e adorava deixar marcas de sangue na bola surrada de capotão, pensava que aquela bola seria eterna e meu sangue ficaria ali pra sempre.
Estive refletindo sobre o Neymar depois do mundial de clubes e fiquei com pena dele. Ta certo que o cara tem tudo e é pago, muito bem pagos para JOGAR FUTEBOL!!!!ele tem o melhor emprego do mundo, porém duvido que ele tirava o tampão do dedão jogando bola descalço no paralelepípedo e duvido muito que ele já jogou um "contra" em que ele jogava contra garotos de outra rua ou bairro apostando tubaína ou coca-cola.
PS: Eu só passei a usar algum calçado porque minha mãe me obrigou e hoje eu não ando descalço nem dentro de casa